[editorial] O limite do limite

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Limite, estrema, fronteira, raia, aquilo que define ou delimita um espaço.

Entendemos, muitas vezes, o limite como um fim, uma meta, uma fronteira entre dois espaços, uma linha que separa, como o momento imediatamente antes de algo transbordar, algo completo ou acabado, um término. Contudo, esse momento pode ser ultrapassado, transpondo-se esse ponto, passando, então, o limite a ser um mediador entre estados diferentes e não apenas um fim em si mesmo.

Mas o que está para além do limite? E qual limite? Do limite físico, existente, marcável e definível? Ou o limite do bom senso, da legalidade, do que é normal fazer? Qual o limite entre o real e o irreal? Entre o natural e o artificial? Entre o possível e o utópico? Será o espaço infinito? E o Espaço? Tem o Universo limites? Sendo este, aparentemente, uma coisa física, é definível e limitado? O Universo expande-se constantemente, mas qual o limite dessa expansão? Terá fim? E qual o limite oposto, o da concentração? Quanto poderá ser o espaço condensado e comprimido?

Partimos da arquitectura, onde os limites se revelam primariamente no espaço, sendo aquilo que dá forma à própria arquitectura. Normalmente podem ser condicionantes para o projeto, mas são do mesmo modo a única base para o fazer; sem eles a arquitectura caíria num vazio experimental onde essa total liberdade acabaria por impedir o processo de criação. Todo o projeto surge de algo – um programa, um local ou um conceito -, e esse algo, por mais variável que possa ser, terá sempre o seu caráter de limite.

No entanto, fugimos também do próprio limite da arquitectura tentando encontrar-nos a nós próprios num tema que é, por contradição à sua natureza, muito amplo e quase ilimitado. Ao mar como uma fronteira física que impede o continuar opomos um estado de reflexão que pela imensidão do seu confronto nos provoca o sonho e desse sonho julgamos o real. Questionamos aquilo que existe mesmo e aquilo que apenas pensamos existir. Real ou irreal, sonho ou metafísica, um diálogo constante que nos provoca a sensação de medo. Regressamos a casa quando nos deparamos com este abismo, mas mesmo aqui há um confronto: discutem-se os tais limites do campo disciplinar da arquitectura. Entendê-los, ou pelo menos discuti-los, permite-nos perceber, não só o modo como esta lida com outras áreas, mas sobretudo as expectativas depositadas sobre esta.

Entender os limites é, no fundo, entender o que é limitado; é entender o que se está a delimitar. Procurando os limites de algo, procura-se esse algo em si. O que define e limita uma coisa acaba por ser a sua própria definição, o modo de a designar.

Viveremos a vida nu limite?

 

autor:
Francisco Paixão (aluno de dissertação)

[editorial] Zero é zero

43 é o número desta revista à procura do zero.

4’33” é o título da peça do John Cage à procura de quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio.

Provocação infantil ou fruto de uma reflexão madura, a reposta por zero reproduz a falsa inocência de um ‘Je vous dis merde!’ à maneira do miúdo de Zéro de Conduite, o filme de Vigo, o revolucionário. Entre provocação e introspecção, o zero questiona o acaso e a razão, a sociedade e o ego. O sei, sei tudo, já não existe. Voltámos ao primeiro grito, à forma primitiva. Qual é? O círculo. Geometria ritual ancorada na memória colectiva, do sagrado ao desejo de comunidade, o círculo molda também uma reflexão sobre a ordem e a reacção.

A ronda dançada pelos revolucionários checos em resposta à ordem militar em Praga, descrita por Kundera n’ O Livro do Riso e do Esquecimento, torna-se ao mesmo tempo provocação e expressão física de uma manipulação inocente, ambos a partir da fé em que o círculo nos une. É óbvio também no uso literal e simbólico da esfera para a formalização das utopias do séc. XVIII.

Matemática básica, brincadeira de crianças de olhos abertos depois da contagem ‘3,2,1, Zero!’, o simples número não deixa de ser o blow-up da contagem militar : ‘3,2,1, Cargo dropped’. Remete-nos para 1945, ano dos mais destrutivos bombardeamentos da História durante a Operação Meetinghouse. Se Tóquio passou a ser um plano raso cinzento reduzido a páginas de história, devastação parece ser a palavra certa. Quando a acção humana não olha a meios para atingir os fins, fecha hipótese de (re)começo.

O fim, facto para nós: mentira cega mas assumida ou hipótese de reversão? Seria possível entrar em contagem decrescente? Diga-se que as medusas Turritopis desafiam a mortalidade, o suposto finito. Um retrocesso no processo evolutivo, um ciclo de metamorfose em movimento contínuo que põe à prova o pensamento de ‘todo o princípio tem um fim’.

Partiu-se da folha em branco, do espaço vazio; discutiu-se em debates e conferências; falou-se da Origine du Monde de Gustave Courbet; refletiu-se sobre a paradoxal quantificação do inexistente, sobre as impossíveis respostas a questões como ‘o que é o existir?’ ou ‘porque existe o ser e não o nada?’; lembrou-se também da breve nota de Le Corbusier de regresso da Viagem do Oriente – ‘Rentrée. Digestion. Une conviction: il faut recommencer à zéro. Il faut poser le problème. Le tourbillon de la vie. Il n’est pas question que d’esthétique¹’; mas afinal – por prazer regressivo – bastou apenas olhar para o umbigo, para a palavra, o palavrão: o nu per se.

¹ in Confessions, L’Art décoratif d’Aujourd’hui, 1952

 

autores:
Duarte Pereira (aluno do 4º ano)
Pedro Lopes (aluno do 4º ano)