[editorial] E agora? Lembra-me…

‘O tempo não tem importância para o assunto. Surpreende-me sempre que os meus contemporâneos, que julgam haver conquistado e transformado o espaço, ignorem que se pode reduzir à vontade a distância dos séculos.’ ²

Este número é uma colecção das nossas memórias. Começa-se inevitavelmente pelo lado pessoal, havendo depois um seguimento para um determinado contexto e para a colectividade.

As primeiras leituras espaciais são particularmente marcantes. Essa experiência molda-nos, define-nos enquanto a exploramos. Visão, audição, tacto, olfacto: todos os sentidos representam o primeiro contacto para a recepção de algo e desse despertar de sentidos, as primeiras recordações perseguem-nos, talvez até nos possam assombrar. Por outro lado, a memória pode representar uma espécie de entrave, um desafio à continuidade. Quem conseguir trabalhar com o passado de forma pragmática, poderá estabelecer e possibilitar novas linguagens.

Contudo, memória é diferente de percepção. A construção de imagens e identidades está associada à criação e acumulação, ao baralhar da história e, consequentemente, da arquitectura. E assim, o arquitecto viaja, recolhe. A concentração de memórias é um processo lento, e mais ainda a filtragem dessa recolha. A memória é uma sobreposição de layers, de história e de mudança, desta é possível obter diversos pontos de observação. A evolução está associada a ideias de transformação, de reminiscência, de períodos de perca e restituição, de crescimento e de reciclagem, assim como a arquitectura. Presenciamos amnésia no quotidiano, sendo que a automatização das nossas acções originam um estranho reencontro com eventos passados.

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De como se esquece e como se lembra. Não há ordem nem consenso na memória porque também não os temos no mundo. E, deste modo, o sonho e o imaginário acabam por confundir ainda mais e por fragmentar toda a lógica que se queira instaurar. Na mesma ideia de fragmentação, está também presente a idiossincrasia do indivíduo face à sua relação com espaço e lugar.

Impreterivelmente dessas relações, a partir de algumas memórias embrionárias é possível caracterizar o ser humano. Mais tarde, esta espécie de herança poderá confrontar algumas decisões e escolhas deste. Correndo o perigo de se confundir com nostalgia, a ordem do presente deverá ser entendida enquanto uma progressão natural, onde nada poderá ficar comprometido. Aqui e agora, não há memória que nos salve inteiramente, podendo apenas fazer uso de alguns dos seus contornos.

Com a inquietação e incerteza permanente em relação ao futuro, esta é essencial para a criação e para a tomada de decisões. A arquitectura dificilmente se transformará em língua morta enquanto houver pretensão de desafiar o tempo e o modus operandi.

 

autores:
Pedro Treno (aluno de dissertação)
João Miranda (aluno do 3º ano)