[editorial] Zero é zero

43 é o número desta revista à procura do zero.

4’33” é o título da peça do John Cage à procura de quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio.

Provocação infantil ou fruto de uma reflexão madura, a reposta por zero reproduz a falsa inocência de um ‘Je vous dis merde!’ à maneira do miúdo de Zéro de Conduite, o filme de Vigo, o revolucionário. Entre provocação e introspecção, o zero questiona o acaso e a razão, a sociedade e o ego. O sei, sei tudo, já não existe. Voltámos ao primeiro grito, à forma primitiva. Qual é? O círculo. Geometria ritual ancorada na memória colectiva, do sagrado ao desejo de comunidade, o círculo molda também uma reflexão sobre a ordem e a reacção.

A ronda dançada pelos revolucionários checos em resposta à ordem militar em Praga, descrita por Kundera n’ O Livro do Riso e do Esquecimento, torna-se ao mesmo tempo provocação e expressão física de uma manipulação inocente, ambos a partir da fé em que o círculo nos une. É óbvio também no uso literal e simbólico da esfera para a formalização das utopias do séc. XVIII.

Matemática básica, brincadeira de crianças de olhos abertos depois da contagem ‘3,2,1, Zero!’, o simples número não deixa de ser o blow-up da contagem militar : ‘3,2,1, Cargo dropped’. Remete-nos para 1945, ano dos mais destrutivos bombardeamentos da História durante a Operação Meetinghouse. Se Tóquio passou a ser um plano raso cinzento reduzido a páginas de história, devastação parece ser a palavra certa. Quando a acção humana não olha a meios para atingir os fins, fecha hipótese de (re)começo.

O fim, facto para nós: mentira cega mas assumida ou hipótese de reversão? Seria possível entrar em contagem decrescente? Diga-se que as medusas Turritopis desafiam a mortalidade, o suposto finito. Um retrocesso no processo evolutivo, um ciclo de metamorfose em movimento contínuo que põe à prova o pensamento de ‘todo o princípio tem um fim’.

Partiu-se da folha em branco, do espaço vazio; discutiu-se em debates e conferências; falou-se da Origine du Monde de Gustave Courbet; refletiu-se sobre a paradoxal quantificação do inexistente, sobre as impossíveis respostas a questões como ‘o que é o existir?’ ou ‘porque existe o ser e não o nada?’; lembrou-se também da breve nota de Le Corbusier de regresso da Viagem do Oriente – ‘Rentrée. Digestion. Une conviction: il faut recommencer à zéro. Il faut poser le problème. Le tourbillon de la vie. Il n’est pas question que d’esthétique¹’; mas afinal – por prazer regressivo – bastou apenas olhar para o umbigo, para a palavra, o palavrão: o nu per se.

¹ in Confessions, L’Art décoratif d’Aujourd’hui, 1952

 

autores:
Duarte Pereira (aluno do 4º ano)
Pedro Lopes (aluno do 4º ano)

Autor: Revista NU

A revista NU é uma publicação produzida pelos estudantes do Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra, resultado de uma reflexão conjunta entre alunos sobre a disciplina.

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